quinta-feira, 10 de maio de 2012

Páginas Soltas - 01

Aqui é a minha calma. Aqui me salvo da poluição do mundo. É o meu canto seguro onde posso revelar o íntimo da minha pessoa sem correr o risco de ser "estranha". Escrevo pra mim e não é do meu interesse que alguém saiba o que eu penso. A reação certamente seria de espanto, me olhariam da cabeça aos pés e se perguntariam se eu sou normal. Escrevo porque considero isso uma forma de diagnosticar os conflitos que existem no mundo e me atingem, os que existem em mim e atingem uma pequena parte do mundo : as pessoas que convivem comigo. Escrevo porque aqui me sinto livre pra crescer. Porque cada palavra aqui tem um sentido especial, tem um significado incomum e um poder relativo. Escrevo porque é uma forma meio estúpida ou inteligente demais de mostrar que eu sou muito mais do que um rosto infantil e uma aparência angelical, muito mais que risos soltos e bobagens ditas sem nenhum sentido, muito mais do que a ignorância impregnada em um ser e uma mente infantil que pouco sabe sobre a vida. Escrevo porque me sinto viva, porque minhas palavras justificam  a diferença do tamanho das minhas expectativas em comparação com o tamanho das pessoas. Espero nascer flores no asfalto, espero até me convencer que isso é um trabalho em vão. Escrevo pra não perder a sensibilidade que ainda me sobra depois de cada dia cansativo, depois de cada nova decepção. Escrevo para me revelar, para me lembrar que a última coisa que eu espero de mim é ser igual a tantos que não sentem ou fingem não sentir nada. Meu jeito calado e apreensivo confunde a cabeça dos que me observam, mal sabem que enquanto eles constroem algo sobre mim eu destruo o que construi sobre eles. Pessoas despercebidas passam a chamar a atenção e o centro das atenções passa a ser periferia. Costumava admirar aquelas que pareciam ser forte, inabaláveis, até perceber que eram lindas enquanto inantingíveis. A postura de quem sabe resolver tudo era apenas um disfarce, para que o mundo acreditasse e as enxergasse como elas na verdade gostariam de ser. Descobri que quem desperta o meu interesse são os que abrem o peito e mostram ser sensíveis. Não frágeis, não inocentes, sensíveis. Aqueles capazes de deixar a lágrima escorrer para que o mundo veja que choram, aqueles que levantam a mão pra secar as lágrimas impedindo que elas sejam capazes de afogar. Escrevo porque aqui eu sei o que o mundo não sabe. Porque aqui eu sou o que muitos desconhecem. Fácil falar de mim, difícil falar em mim. A pouca idade não necessariamente transmite o nível de consciência sobre alguma coisa. Já sai de muitos buracos sozinha, já armei e desarmei guerras, já baixei as armas, já fui pouco, já fui escrava de sentimentos enfermos, inúteis, agora sou rainha, dona de mim. Há muito pensei que queria ser forte, séria, inatingível, agora no auge da minha liberdade de escolha, decidi ser feliz e notei que isso já me fazia forte, passei a levar essa felicidade a sério e fiz dos meus sonhos e da minha fé o auge de tudo que se pode considerar inatingível. As decepções tentam estragar, mas a vontade de superar isso concerta o estrago. Quem me olha me dá fórmulas e conceitos, poucos acertam, impossível falar sobre o que não se conhece. Eu sou mais do que aparente, um poço no meio do deserto que quase ninguém acredita que possa existir. Escrevo aqui sobre um surto de tédio. Um cansaço invasivo de tudo. Não sou boneca, não sou vilã. Sou a incapacidade de tantos que não conseguem me conhecer a fundo. O superficial pode até ser construído de conceitos, mas isso faz alguém ser o que elas querem que seja. A essência é no íntimo e é essa a parte que poucos descobrem. As linhas acima apenas traduzem a minha sensibilidade e a minha fragilidade. A minha seriedade com a vida e a minha disposição de crer no que já não se acredita. Escrevo para lembrar a cada palavra, que o mundo é sim capaz de ferir e destruir seus maiores sonhos, mas que se sua vontade for sempre maior que a sua dor, você vai descobrir então, inúmeras formas de ultrapassar o que de cara parece ser impossível.

Por: Hellen Reylla Nascimento.

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